Lipidema em mulheres depois dos 35

lipidema

O corpo feminino muda ao longo da vida, e depois dos 35 anos essas mudanças podem ficar mais perceptíveis. Sei bem como é! Alterações hormonais, gestação, menopausa, redução da massa muscular, mudanças no nível de atividade física e aumento da gordura corporal podem modificar a distribuição de gordura e a forma como a mulher percebe o próprio corpo. Em algumas mulheres, porém, o aumento desproporcional de volume principalmente nas pernas e nos braços, acompanhado de dor, sensibilidade, sensação de peso e facilidade para apresentar hematomas, pode ter outra explicação: o lipedema.

O lipedema ainda é pouco reconhecido e frequentemente confundido com obesidade, retenção de líquidos ou linfedema. Essa confusão é importante porque uma mulher pode passar anos tentando reduzir determinadas regiões do corpo apenas com restrição alimentar e exercício, interpretando a dificuldade de resposta como falta de disciplina. Na realidade, o lipedema é uma condição crônica do tecido adiposo e conjuntivo, predominantemente feminina, cuja apresentação clínica não pode ser explicada simplesmente pelo excesso de calorias ou pelo ganho de peso.

Isso não significa que alimentação, atividade física, composição corporal ou controle do peso deixem de ser importantes. Pelo contrário. Quando bem individualizados, esses cuidados fazem parte do manejo da condição e podem contribuir para a saúde metabólica, mobilidade e qualidade de vida. O ponto fundamental é compreender que tratar uma mulher com lipedema não é simplesmente colocá-la em uma dieta para emagrecer.

E é justamente aqui que a nutrição precisa sair do discurso de “coma menos e faça mais exercício” e olhar para a mulher como um todo.

Importante: lipedema é uma condição que precisa de avaliação clínica individualizada. Este artigo tem finalidade educativa e não substitui consulta médica, nutricional ou fisioterapêutica.

O que é lipedema?

O lipedema é uma doença crônica do tecido adiposo e conjuntivo caracterizada, de maneira típica, por uma distribuição desproporcional e geralmente simétrica do tecido adiposo, principalmente nos membros inferiores, podendo também atingir os braços. A condição ocorre predominantemente em mulheres e pode estar associada a dor ou sensibilidade, sensação de peso, edema, facilidade para apresentar hematomas e alterações na textura dos tecidos.

Um dos aspectos que mais confundem é que o lipedema pode coexistir com obesidade. Portanto, não devemos pensar em uma escolha entre “é lipedema ou é excesso de peso”. Uma mesma mulher pode apresentar lipedema e, ao mesmo tempo, excesso de gordura corporal metabolicamente relevante. Nessa situação, as duas condições precisam ser reconhecidas e tratadas de acordo com suas características.

Outro ponto importante é que o lipedema não é simplesmente uma questão estética. A distribuição alterada de tecido adiposo pode estar associada a dor, alterações da mobilidade, comprometimento da qualidade de vida e, em determinados casos, problemas linfáticos associados. Por isso, reduzir a discussão do lipedema a “gordura difícil de perder” acaba deixando de lado aspectos importantes da doença.

Por que o lipedema pode chamar mais atenção depois dos 35 anos?

Não existe uma idade única em que o lipedema necessariamente começa. Entretanto, mudanças hormonais parecem ter relação com o desenvolvimento ou agravamento de manifestações da condição. Puberdade, gestação e menopausa são períodos frequentemente descritos na literatura como momentos em que alterações hormonais e corporais podem coincidir com o surgimento ou progressão do quadro.

Isso ajuda a compreender por que algumas mulheres começam a perceber uma mudança significativa no formato das pernas ou dos braços depois de determinadas fases da vida.

Depois dos 35 anos, também é comum ocorrer uma combinação de fatores que modifica a composição corporal. A mulher pode perder massa muscular se não houver estímulo adequado, tornar-se menos ativa, dormir pior, enfrentar maior carga de trabalho e responsabilidades familiares e apresentar mudanças no metabolismo e nos hormônios sexuais. Tudo isso pode acontecer simultaneamente ao lipedema.

Portanto, perceber aumento de volume nas pernas aos 38, 42 ou 47 anos não significa automaticamente que a mulher tenha lipedema. Da mesma forma, ter lipedema não significa que todas as mudanças corporais observadas depois dos 35 anos sejam causadas pela doença.

Prefiro fala assim para evitar diagnósticos feitos pela internet.

Como saber se é lipedema ou apenas gordura localizada?

Essa é uma das perguntas mais pesquisadas por mulheres que começam a desconfiar da condição.

O diagnóstico do lipedema é predominantemente clínico. Isso significa que história clínica, sintomas e exame físico são fundamentais, e outras possibilidades precisam ser consideradas. Não existe atualmente um exame de sangue simples que, sozinho, confirme ou descarte o diagnóstico. Exames de imagem podem auxiliar em determinadas situações, mas não substituem a avaliação clínica.

Algumas características podem levantar suspeita:

  • aumento de volume predominantemente em pernas e/ou braços;
  • distribuição geralmente bilateral e relativamente simétrica;
  • dor ou sensibilidade ao toque ou à pressão;
  • sensação de peso ou desconforto;
  • facilidade para desenvolver hematomas;
  • desproporção entre membros e tronco;
  • pés geralmente preservados, com uma transição característica próxima aos tornozelos;
  • ausência típica do sinal de Stemmer, embora isso não seja suficiente para estabelecer o diagnóstico.

É importante observar a palavra “geralmente”. O lipedema apresenta diferentes formas e estágios, e nem todas as mulheres terão exatamente a mesma aparência ou todos os sintomas.

Além disso, hematomas fáceis não são exclusivos do lipedema. Alterações vasculares, medicamentos, deficiências nutricionais e outras condições também podem favorecer equimoses. Portanto, um único sinal nunca deve ser utilizado para fazer autodiagnóstico.

Lipedema, obesidade e retenção de líquidos são a mesma coisa?

Não! A obesidade envolve excesso de gordura corporal associado a riscos metabólicos e à saúde, enquanto o lipedema possui características próprias de distribuição e alterações do tecido adiposo e conjuntivo. As duas condições, entretanto, podem coexistir.

Já a retenção de líquidos é uma descrição muito mais ampla e pode ocorrer por diferentes motivos, desde alterações hormonais e hábitos cotidianos até doenças cardiovasculares, renais, hepáticas, venosas ou uso de determinados medicamentos.

O linfedema, por sua vez, está relacionado à disfunção do sistema linfático e também pode coexistir com o lipedema em fases mais avançadas ou em determinadas situações.

Essa diferenciação é importante porque “minhas pernas estão inchadas” é um sintoma, e não um diagnóstico.

Uma avaliação adequada precisa investigar quando o aumento de volume acontece, se há dor, se existe alteração ao longo do dia, se os pés estão envolvidos, se há histórico familiar, se existem doenças associadas, uso de medicamentos e outras características clínicas.

O lipedema é causado por hormônios?

A relação entre hormônios e lipedema é uma área importante de investigação científica.

A literatura descreve uma possível influência hormonal, especialmente relacionada aos hormônios sexuais femininos, e observa associação temporal entre manifestações do lipedema e períodos de grandes mudanças hormonais, como puberdade, gravidez e menopausa. Uma revisão sistemática publicada em 2026 encontrou hipóteses envolvendo metabolismo do estrogênio, receptores hormonais, tecido adiposo e fatores metabólicos. Porém, os mecanismos ainda não estão completamente esclarecidos.

Por isso, é inadequado afirmar que “lipedema é causado pelo excesso de estrogênio” como se essa fosse uma explicação comprovada e suficiente.

A ciência atual aponta para uma condição provavelmente multifatorial, envolvendo fatores hormonais, genéticos, metabólicos, vasculares e características do próprio tecido adiposo.

A alimentação pode tratar o lipedema?

A resposta mais responsável que posso dar aqui é que : a alimentação faz parte do tratamento e ajuda no controle da saúde metabólica e dos sintomas, mas não existe uma dieta comprovada capaz de curar o lipedema.

Já adianto que, não existe, até o momento, uma única dieta que possa ser considerada universalmente “a dieta do lipedema”.

Dietas com redução de carboidratos, estratégias cetogênicas, padrões mediterrâneos modificados e outras intervenções nutricionais vêm sendo estudadas. Alguns trabalhos encontraram redução de peso, medidas e dor, especialmente em mulheres com lipedema associado à obesidade. Entretanto, os estudos ainda são relativamente pequenos, apresentam diferentes protocolos e, em muitos casos, limitações metodológicas. Uma revisão sistemática recente destacou justamente a heterogeneidade dos protocolos e o risco de viés moderado a alto em boa parte dos estudos.

Um ensaio clínico randomizado publicado em 2024 acompanhou 70 mulheres com lipedema e obesidade durante oito semanas. O grupo submetido a uma dieta com restrição de carboidratos apresentou maior perda de peso e maior redução de uma medida de dor em comparação ao grupo controle.

Esses resultados são interessantes, mas não significam que toda mulher com lipedema precise fazer dieta low carb.

Outro estudo pequeno avaliou uma intervenção com baixo carboidrato e observou redução de tecido adiposo subcutâneo da panturrilha, circunferência e dor, mas também houve redução de massa muscular, mostrando por que composição corporal precisa ser acompanhada e não apenas o peso na balança.

Mais recentemente, uma pesquisa preliminar com 24 mulheres acompanhadas durante sete meses encontrou associação entre uma dieta individualizada, hipocalórica e low carb/high fat e redução de IMC, volume das pernas e dor. Os próprios autores destacam que o desenho do estudo não permite estabelecer causalidade.

Ou seja: existe sinal científico interessante, mas ainda não existe motivo para transformar uma estratégia específica em regra universal.

Comida de verdade pode fazer parte da alimentação de quem tem lipedema?

Sim. E uma alimentação baseada predominantemente em comida de verdade permite organizar a rotina alimentar sem depender de produtos “detox”, chás milagrosos, cápsulas ou alimentos vendidos como capazes de “desinflamar o lipedema”.

Na prática, seria fazer refeições com alimentos minimamente processados, fontes adequadas de proteína, verduras, legumes, frutas, feijões e outras leguminosas, cereais e tubérculos de acordo com a necessidade individual, além de fontes de gorduras de boa qualidade. A quantidade e a distribuição desses alimentos precisam ser individualizadas (não copie a dieta da colega).

Para algumas mulheres, reduzir a quantidade de ultraprocessados, bebidas açucaradas e excesso de alimentos altamente palatáveis pode facilitar o controle energético e metabólico. Para outras, uma redução mais estruturada de carboidratos pode ser útil. Para algumas, uma abordagem mediterrânea será mais sustentável.

O melhor plano não é necessariamente o mais restritivo. É aquele que consegue atender às necessidades nutricionais, favorecer adesão e respeitar condições clínicas, preferências, rotina e objetivos.

Uma alimentação predominantemente baseada em alimentos in natura ou minimamente processados, adequada em proteínas, fibras, micronutrientes e gorduras de boa qualidade, tende a ser uma estratégia mais consistente do que construir uma dieta em torno da exclusão de dezenas de alimentos.

A expressão “anti-inflamatória” pode ser útil como conceito, mas torna-se problemática quando utilizada para vender protocolos extremamente restritivos.

Ter lipedema não significa automaticamente que a mulher precise retirar glúten, leite, tomate, batata, frutas ou qualquer outro alimento.

A necessidade de exclusão deve partir de uma indicação individual, e não de uma lista encontrada nas redes sociais.

Proteína e massa muscular: um ponto que merece atenção depois dos 35

Quando falamos de lipedema em mulheres 35+, não podemos olhar apenas para a gordura corporal. A massa muscular passa a ter enorme importância para composição corporal, força, mobilidade, funcionalidade e envelhecimento saudável.

Isso ganha ainda mais relevância quando existe uma tentativa de emagrecimento. Uma redução muito agressiva de calorias pode diminuir não apenas gordura, mas também massa magra. Estudos em mulheres com lipedema já observaram redução de massa livre de gordura durante intervenções dietéticas, reforçando a importância de acompanhar composição corporal e não apenas peso.

A proteína deve ser adequada às necessidades individuais, levando em consideração peso, composição corporal, idade, atividade física, função renal, ingestão habitual e objetivo.

Não significa que toda mulher com lipedema precise tomar whey protein.

O whey pode ser uma ferramenta prática quando existe dificuldade para alcançar a necessidade proteica com alimentos, mas não é um tratamento para lipedema. O mesmo raciocínio vale para creatina: pode ter indicação dentro de uma estratégia voltada para força e massa muscular, mas não deve ser apresentada como suplemento específico para tratar a doença.

E suplementos? O que realmente pode fazer sentido?

No lipedema, suplementos devem ser avaliados individualmente. Antes de suplementar, é importante considerar alimentação, sintomas, medicamentos utilizados no momento, exames laboratoriais, histórico clínico e possíveis deficiências.

Vitamina D, por exemplo, pode precisar ser avaliada e corrigida quando existe deficiência. O padrão de cuidado norte-americano recomenda monitoramento e normalização dos níveis de vitamina D em pessoas com lipedema, mas isso não significa que doses elevadas devam ser utilizadas indiscriminadamente.

Outros suplementos e compostos, como antioxidantes ou substâncias utilizadas para circulação, vêm sendo estudados ou empregados em determinados contextos. Entretanto, a qualidade das evidências varia e nenhum suplemento deve ser apresentado como capaz de “quebrar a gordura do lipedema”.

Veja aqui esse resumo que eu fiz:


Exercício ajuda quem tem lipedema?

Sim! A atividade física é importante para preservar força, massa muscular, capacidade funcional, saúde cardiovascular e mobilidade. Exercícios aquáticos, caminhada, bicicleta, treinamento de força, yoga e outras modalidades podem ser utilizados de acordo com tolerância e condição individual. Diretrizes recomendam que o exercício seja individualizado, iniciado de maneira progressiva e adaptado à presença de dor ou limitações de mobilidade.

Se uma mulher sente dor nas pernas, não faz sentido estabelecer um programa baseado exclusivamente em impacto elevado e depois culpá-la por não conseguir cumprir.

O exercício precisa caber naquele corpo. E o treinamento de força merece atenção especial, principalmente após os 35 anos, porque preservar músculo é uma das ferramentas mais importantes para manter funcionalidade e composição corporal ao longo do envelhecimento. Mas vou deixar esse assunto para um personal trainer explicar melhor para vocês, em breve!

Como deve ser uma estratégia nutricional para mulheres 35+ com lipedema?

Uma estratégia nutricional individualizada pode começar muito antes de pensar em retirar grupos inteiros de alimentos.

Primeiro, é importante compreender a história da mulher: quando percebeu as alterações corporais, se existe histórico familiar, como os sintomas variam, presença de dor, hematomas, alterações hormonais, gestação, menopausa, doenças metabólicas, medicamentos, sono, atividade física e relação com a alimentação.

Depois, é possível avaliar composição corporal, distribuição de gordura, ingestão proteica, fibras, qualidade da alimentação, consumo de ultraprocessados e possíveis inadequações nutricionais.

Exames laboratoriais podem ser solicitados ou interpretados dentro do contexto clínico, quando pertinentes, especialmente quando existem sintomas ou condições que justifiquem investigação.

A partir daí, podemos inciar um plano alimentar.

Isso pode significar aumentar a presença de legumes e verduras, melhorar a qualidade das fontes de proteína, organizar o consumo de frutas, feijões e cereais conforme a necessidade, escolher melhores fontes de gordura, reduzir o excesso de produtos ultraprocessados e ajustar quantidade e distribuição de carboidratos.

Em algumas mulheres, uma estratégia low carb poderá ser uma ferramenta interessante. Em outras, uma alimentação equilibrada com carboidratos de boa qualidade poderá funcionar muito bem.

O que uma mulher com suspeita de lipedema pode fazer agora?

Se você reconhece vários dos sinais descritos neste artigo, o primeiro passo não deveria ser comprar uma dieta pronta.

Procure avaliação profissional para investigar a possibilidade de lipedema e descartar outras causas de aumento de volume ou dor nas pernas.

A abordagem pode envolver diferentes profissionais, como médico, nutricionista e fisioterapeuta especializado em condições linfáticas, conforme a necessidade. O consenso brasileiro destaca justamente a importância de uma abordagem multidisciplinar.

Enquanto isso, algumas atitudes gerais são úteis: manter uma alimentação baseada predominantemente em comida de verdade, evitar dietas extremamente restritivas sem indicação, cuidar da ingestão de proteínas, manter hidratação adequada, preservar a massa muscular por meio de atividade física compatível com sua condição e não transformar a balança no único indicador de progresso.

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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação individualizada de um profissional de saúde.

Por Talita Dezidério
Nutricionista

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