Dor durante o sexo

dor durante o sexo

Existe uma pergunta que muitas mulheres fazem em silêncio: “Por que está doendo quando faço sexo?”

E o mais importante antes de procurar uma resposta seja dizer uma coisa que precisa ser repetida: sexo não deveria ser sinônimo de dor. Uma relação sexual pode envolver sensibilidade, pressão, contrações musculares, pequenas mudanças de posição e até algum desconforto ocasional. Mas quando a dor é frequente, intensa, aparece sempre na penetração ou faz você começar a evitar relações sexuais por medo do que vai sentir, vale a pena investigar.

A dor durante o sexo é chamada de dispareunia e pode ter diferentes origens. Pode estar relacionada à falta de lubrificação, alterações hormonais, infecções, tensão da musculatura do assoalho pélvico, endometriose, cistos ovarianos, alterações da vulva, condições ginecológicas ou até à maneira como o corpo está respondendo ao estresse e à expectativa de sentir dor. A própria American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) destaca que a dor durante a relação sexual é bastante comum e pode ter causas ginecológicas e também relacionadas à resposta sexual.

E é justamente por isso que simplesmente tomar um suplemento, usar um lubrificante ou “aguentar porque depois passa” pode não resolver o problema. A boa notícia é que dor durante o sexo tem tratamento. E, dependendo da causa, uma abordagem que envolva ginecologia, fisioterapia pélvica, sexualidade, sono, alimentação e correção de deficiências nutricionais pode fazer parte de uma estratégia muito mais completa.

Dor durante o sexo: onde exatamente dói?

Uma informação que parece simples, mas ajuda muito na investigação, é observar onde a dor acontece? Algumas mulheres sentem dor logo na entrada da vagina, no momento da penetração. Outras sentem ardência, queimação ou sensação de “machucado”. Há ainda quem sinta uma dor mais profunda, dentro da pelve, principalmente quando a penetração é mais profunda.Essa diferença importa porque a localização da dor pode apontar para causas diferentes.

A dor na entrada da vagina pode estar associada, por exemplo, à secura vaginal, irritações, infecções, vulvodinia ou contração involuntária da musculatura do assoalho pélvico. Já uma dor profunda pode estar relacionada a condições como endometriose, doença inflamatória pélvica, cistos ovarianos, aderências ou outras alterações ginecológicas.

Por isso, quando uma mulher diz apenas “sexo está doendo”, ainda falta uma informação fundamental:

como é essa dor, quando ela aparece e onde ela é sentida?

Falta de lubrificação pode ser a causaa principalmente depois dos 40

Uma das causas mais comuns de dor durante a relação sexual é a redução da lubrificação. E aqui entramos em um assunto especialmente importante para mulheres na faixa dos 40 e 50 anos que é a transição para a menopausa. Durante a perimenopausa, os níveis hormonais começam a oscilar e, posteriormente, a redução do estrogênio pode provocar mudanças importantes nos tecidos vaginais. A mucosa pode ficar mais fina, menos elástica e mais seca, além de haver redução da lubrificação natural. Essas alterações fazem parte do chamado síndrome geniturinária da menopausa (SGM). Na prática, isso pode começar com algo aparentemente pequeno.

A relação que antes era confortável começa a causar um pouco de ardência. Depois aparece uma sensação de atrito. A mulher percebe que precisa de mais tempo para se sentir confortável. Em seguida, começa a antecipar a dor antes mesmo da relação acontecer. E esse ciclo pode se tornar bastante frustrante!

Lubrificantes e hidratantes vaginais podem ajudar quando existe ressecamento. Em algumas mulheres na menopausa, tratamentos locais prescritos pelo ginecologista, como estrogênio vaginal, também podem ser indicados e têm ação diretamente sobre os tecidos vaginais.

E se a dor for profunda?

Quando a mulher descreve uma dor profunda durante a penetração, especialmente quando ela é recorrente, vale investigar outras possibilidades.cEntre elas estão endometriose, adenomiose, cistos ovarianos, doença inflamatória pélvica e aderências. A endometriose, por exemplo, pode provocar dor pélvica e dor durante ou depois da relação sexual. Cistos ovarianos também podem estar associados à dor, especialmente dependendo do tamanho, localização e situação clínica.

A doença inflamatória pélvica merece atenção especial porque pode estar relacionada a infecções do trato genital e, quando não tratada, pode causar complicações. Algumas infecções sexualmente transmissíveis também podem ser assintomáticas, o que torna a avaliação médica ainda mais importante quando existe suspeita.

Portanto, uma dor profunda, persistente ou que está piorando não deve ser tratada simplesmente como “falta de lubrificação”.

Infecção vaginal também pode fazer sexo doer

Candidíase, vaginose bacteriana e outras condições que provocam inflamação ou irritação da vulva e da vagina podem tornar a relação sexual desconfortável. E os sinais podem variar, tá? Pode dar coceira, ardência, alteração do corrimento, odor diferente, vermelhidão ou simplesmente uma sensação de irritação que fica mais evidente durante a relação.

Atualmente já sabemos que a composição microbiana da vagina tem importância para a saúde genital, e alterações desse ecossistema podem estar associadas a condições como a vaginose bacteriana. Mas existe uma ressalva importante que nem toda alteração vaginal deve ser tratada com probióticos por conta própria. A evidência sobre probióticos para vaginose bacteriana é promissora em algumas situações, mas ainda não existe consenso sobre quais cepas, doses e esquemas são os melhores. O que eu quero dizer é que a alimentação e microbiota são importantes, mas uma infecção diagnosticada precisa receber o tratamento adequado.

O assoalho pélvico também pode estar por trás da dor

Essa é uma causa que muitas mulheres desconhecem, eu era uma delas. O assoalho pélvico é formado por músculos que participam da sustentação dos órgãos pélvicos e também têm papel na função sexual. Quando esses músculos permanecem excessivamente contraídos, podem contribuir para dor durante a penetração. E essa contração, em algumas mulheres, isso pode acontecer de forma involuntária.

Imagine alguém que já teve algumas experiências dolorosas. O corpo começa a “se proteger”. Antes mesmo da penetração, os músculos podem ficar contraídos. A tentativa de penetração gera mais desconforto, a mulher fica ainda mais tensa e o ciclo se repete. É por isso que, em determinados casos, fisioterapia especializada em assoalho pélvico pode ser uma parte extremamente importante do tratamento.Hoje já é bem reconhecida a fisioterapia como uma abordagem utilizada no manejo de diferentes formas de dor pélvica, inclusive para trabalhar aspectos musculares e miofasciais.

Estresse, ansiedade e medo da dor podem participar desse ciclo

Não quero dizer que “a dor está apenas na sua cabeça”, que a dor não existe. Não é isso! Mas o sistema nervoso participa da experiência dolorosa. Medo, estresse, vergonha, experiências negativas e ansiedade podem dificultar o relaxamento e a resposta sexual, aumentando a possibilidade de desconforto. Muitos ginecologistas já falam sobre os fatores emocionais, estresse e dificuldade de relaxamento podem interferir na resposta sexual e contribuir para a dor.

Por isso, em algumas mulheres, o tratamento precisa ser multidisciplinar. Ginecologista, fisioterapeuta pélvica, psicóloga ou terapeuta sexual e nutricionista podem atuar em diferentes partes do problema.

E onde entra a nutrição?

Agora chegamos a uma parte que considero especialmente interessante, claro né?! Quando falamos em dor durante o sexo, não existe uma “dieta para acabar com essa dor”. Seria irresponsabilidade minha prometer isso para vocês. Mas existe uma relação muito mais ampla entre nutrição, principalmente na transição menopausal, cuidar da alimentação pode ajudar a criar um terreno metabólico mais favorável para a saúde da mulher.

A primeira estratégia não é comprar cápsulas, e sim olhar para o seu prato. Uma alimentação baseada em vegetais, frutas, legumes, verduras, feijões, lentilhas, grãos integrais, sementes, castanhas, boas fontes de proteína e gorduras insaturadas fornece nutrientes importantes para a manutenção dos tecidos e para a saúde como um todo.

Também é interessante reduzir o padrão alimentar dominado por ultraprocessados, excesso de açúcar, gorduras de baixa qualidade e álcool, eita, eita hein!. Só quero que você entenda que um alimento específico “não cura” secura vaginal ou dispareunia (essa dor durante o sexo). Você precisa olhar e optar uma alimentação que favoreça a sua saúde metabólica, cardiovascular e envelhecimento saudável, que são pilares importantes da saúde da mulher.

Ômega-3 pode ajudar?

O ômega-3 é um dos suplementos que mais chama atenção quando falamos em inflamação e saúde feminina. EPA e DHA participam de vias relacionadas à resolução da inflamação e têm funções importantes no organismo. Existem estudos mostrando redução da intensidade da dismenorreia, ou seja, das cólicas menstruais, com suplementação de ômega-3.

O ômega-3 de qualidade pode ser MUITO interessante dentro de uma estratégia nutricional individualizada, especialmente quando existe baixa ingestão de peixes e outras fontes de EPA e DHA ou quando há outras indicações nutricionais para sua utilização. E falando sério né meninas, a maioria de nós temos consumido muito pouco as fontes de ômega 3 e por isso é um dos suplementos que eu mais tenho indicado nas consultas. A indicação e a dose devem ser individualizadas, principalmente para mulheres que usam medicamentos que interferem na coagulação.

Aguardem que ainda vou fazer um artigo só sobre ômega 3 e selecionar os melhores do mercado, que eu realmente conheço.

Vitamina D: atenção à deficiência

Eu sei que você não deve ter pensado nisso mas a vitamina D também merece ser lembrada. Existem estudos investigando sua relação com saúde vaginal e sintomas associados à atrofia vaginal. Um ensaio clínico com vitamina D vaginal encontrou melhora de alguns parâmetros relacionados à atrofia e redução de dor, enquanto outro estudo avaliou suplementação oral de vitamina D em mulheres na pós-menopausa.

No dia a dia do consultório, já faz parte da rotina avaliar a ingestão alimentar, o contexto clínico e, quando indicado, exames laboratoriais, corrigindo uma deficiência identificada.

Agora vamos as perguntinhas!

Perguntas frequentes sobre dor durante o sexo

É normal sentir dor durante a relação sexual?

Uma dor ocasional pode acontecer, mas dor frequente, intensa ou persistente não deve ser considerada normal. A dor durante o sexo pode ter diversas causas e merece avaliação quando se torna recorrente.

Por que sinto dor durante a penetração?

As causas incluem secura vaginal, infecções, irritação da vulva, tensão do assoalho pélvico, vaginismo, vulvodinia e alterações hormonais. Quando a dor é profunda, também podem existir condições como endometriose, cistos ovarianos ou doença inflamatória pélvica.

A menopausa pode causar dor durante o sexo?

Sim. A redução do estrogênio pode diminuir a lubrificação e provocar alterações na espessura e elasticidade dos tecidos vaginais, levando à chamada síndrome geniturinária da menopausa, que pode incluir secura e dor durante a relação.

Qual suplemento é melhor para dor durante o sexo?

Não existe atualmente um suplemento alimentar que possa ser considerado tratamento padrão para a dispareunia. Dependendo da causa e das necessidades individuais, nutrientes como vitamina D ou ácidos graxos ômega-3 podem fazer parte de uma estratégia nutricional, mas não substituem a investigação da causa da dor.

Probiótico ajuda na saúde vaginal?

Pode ter papel em algumas situações, especialmente relacionadas à vaginose bacteriana, mas as evidências ainda não definem uma única cepa, dose ou estratégia como ideal. Probióticos não devem substituir diagnóstico e tratamento médico de uma infecção.

Dor durante o sexo depois dos 40 é normal?

É relativamente comum que mudanças hormonais da perimenopausa e menopausa provoquem secura e desconforto, mas isso não significa que a mulher precise simplesmente aceitar a dor. Existem opções de tratamento e estratégias para melhorar a saúde sexual.

Qual médico procurar para dor durante o sexo?

O ginecologista é um dos principais profissionais para investigar causas ginecológicas. Dependendo do diagnóstico, também podem participar do tratamento fisioterapeuta especializado em assoalho pélvico, psicólogo ou terapeuta sexual e nutricionista.

Amigas, quanto mais cedo a causa for identificada, maiores são as possibilidades de construir uma estratégia adequada para que intimidade, prazer e conforto possam voltar a fazer parte da sua vida.

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui consulta médica, avaliação ginecológica ou prescrição individualizada de suplementos e tratamentos.

Por Talita Dezidério

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