O que o seu intestino tem a ver com a menopausa?

Se você começou a perceber que, depois dos 40, seu intestino não funciona mais como antes, você não está imaginando coisas. Estufamento, gases, prisão de ventre, alterações no ritmo intestinal, sensação de digestão mais lenta e até mudanças na tolerância a determinados alimentos podem aparecer ou piorar justamente durante a perimenopausa e a menopausa. E, embora seja comum colocar tudo na conta da idade, existe uma conversa muito mais interessante acontecendo dentro do seu corpo, que é a conversa entre hormônios, intestino, microbiota intestinal e metabolismo. A relação entre intestino e menopausa é complexa e ainda está sendo estudada, mas já sabemos que o sistema gastrointestinal não funciona isoladamente. Ele participa da regulação metabólica, imunológica e hormonal do organismo e abriga trilhões de microrganismos que interagem continuamente com aquilo que comemos, com nossos hábitos e com o ambiente hormonal. Estudos recentes mostram que sintomas digestivos são muito frequentes durante a transição menopausal, enquanto pesquisas sobre microbiota e estrogênio vêm tentando entender melhor como essas duas áreas se influenciam. Portanto, se você chegou aqui pensando “o que o meu intestino tem a ver com a menopausa?”, a resposta é: Tudo!

Primeiro vamos entender, o que muda no corpo durante a menopausa?

Para entender o intestino, precisamos primeiro entender o que está acontecendo com os hormônios. A menopausa não acontece simplesmente no dia em que a menstruação desaparece. Antes dela existe uma fase chamada perimenopausa, marcada por oscilações hormonais que podem durar vários anos. Nesse período, os níveis de estrogênio e progesterona deixam de seguir aquele padrão relativamente previsível dos anos reprodutivos. Depois da menopausa, ocorre uma redução importante da produção ovariana de estrogênio. Essa mudança hormonal pode repercutir em diversos tecidos e sistemas do organismo, inclusive no trato gastrointestinal. E aqui está um ponto importante: não significa que toda alteração intestinal seja causada diretamente pela queda do estrogênio. Sono ruim, estresse, alimentação, sedentarismo, ganho de peso, medicamentos, suplementação, alterações metabólicas e mudanças na rotina também podem influenciar muito o funcionamento intestinal. Na prática, a menopausa funciona como um período de grandes mudanças fisiológicas, e o intestino pode fazer parte dessa história.

Uma publicação da The Menopause Society de 2025 chamou atenção justamente para esse assunto. Em um estudo com quase 600 mulheres entre 44 e 73 anos, 94% relataram algum sintoma digestivo, sendo os mais frequentes inchaço, constipação, dor abdominal e refluxo. A maioria das participantes que apresentava sintomas relatou que eles começaram ou pioraram durante a perimenopausa ou menopausa. Isso não significa que todas essas manifestações sejam provocadas exclusivamente pelos hormônios, mas mostra algo que merece muito mais atenção: a saúde digestiva feminina na meia-idade não deveria ser tratada como um assunto secundário. Não mesmo!

O estrogênio e o intestino: existe mesmo uma conexão?

Sim! Estrogênio e intestino estão mais relacionados do que parece. Durante a perimenopausa e a menopausa, os níveis de estrogênio mudam bastante, e essas alterações podem ser percebidas em várias partes do corpo, inclusive no intestino. É por isso que algumas mulheres começam a perceber mais prisão de ventre, gases, estufamento ou mudanças na digestão nessa fase.

E tem mais: dentro do nosso intestino vivem trilhões de bactérias, que formam aquilo que chamamos de microbiota intestinal. Essas bactérias não estão ali apenas para ajudar na digestão. Elas também participam de vários processos do organismo, inclusive do metabolismo de alguns hormônios. O estrogênio, por exemplo, depois de ser utilizado pelo corpo, passa por processos no fígado e parte dele chega ao intestino. As bactérias intestinais podem ajudar a determinar o que acontece com esses hormônios a partir daí.

É como se existisse uma conversa entre os hormônios e o intestino. Quando os níveis de estrogênio mudam durante a menopausa, o funcionamento do intestino também pode mudar. E, ao mesmo tempo, a alimentação e a saúde da microbiota influenciam a forma como o organismo processa diferentes substâncias. Isso não significa que “bactérias boas aumentam o estrogênio” ou que cuidar do intestino vai resolver todos os sintomas da menopausa, essas afirmações são simplificações que a ciência ainda não consegue sustentar. Mas já sabemos que existe uma relação importante entre hormônios, intestino e microbiota, e cuidar da saúde intestinal é uma peça interessante dentro do cuidado integral da mulher nessa fase.

Em outras palavras, quero dizer que, quando o estrogênio muda, o intestino pode sentir. E quando cuidamos do intestino, ajudamos a cuidar de uma parte importante de todo o organismo.

Por que o intestino pode ficar mais “preguiçoso” nessa fase?

Uma das queixas que muitas mulheres percebem é a constipação na menopausa. Algumas passam a evacuar com menor frequência; outras percebem fezes mais ressecadas, maior esforço para evacuar ou a sensação de que o intestino não esvaziou completamente. Tecnicamente, constipação não significa simplesmente “não fazer cocô todos os dias”. Ela pode envolver evacuações menos frequentes, fezes endurecidas ou difíceis de eliminar e sensação de evacuação incompleta.

A mudança hormonal pode fazer parte do contexto, mas não devemos colocar toda a responsabilidade sobre o estrogênio. Com o passar dos anos, também podem ocorrer mudanças na composição corporal, na atividade física, no padrão alimentar e no uso de medicamentos ou suplementos. Além disso, algumas mulheres passam a consumir menos alimentos por medo de engordar, reduzem carboidratos e fibras de maneira exagerada, aumentam o consumo de produtos ultraprocessados “fit” e diminuem frutas, feijões, cereais integrais e outros alimentos vegetais. Resultado? O intestino recebe menos matéria-prima para formar um bolo fecal adequado e para alimentar a microbiota.

E existe outro detalhe que muitas vezes passa despercebido: ferro em suplementos pode contribuir para a constipação em algumas pessoas. É querida, isso mesmo! Portanto, se uma mulher está usando ferro, cálcio, determinados medicamentos ou vários suplementos ao mesmo tempo e percebeu uma mudança importante no intestino, vale conversar com um profissional de saúde antes de simplesmente aumentar a quantidade de fibras ou comprar um laxante. O NIDDK reconhece medicamentos e suplementos de ferro, entre outros, como possíveis fatores associados à constipação.

E o famoso inchaço depois dos 40?

O inchaço abdominal também merece uma conversa mais profunda. Muitas mulheres chegam à consulta dizendo: “Minha barriga aumentou, parece que estou grávida no final do dia”. Só que barriga aumentada não é necessariamente gordura abdominal. Distensão abdominal, gases, constipação e alterações na digestão podem modificar bastante a aparência e o conforto abdominal ao longo do dia.

Durante a transição menopausal, alterações gastrointestinais podem coexistir com mudanças na composição corporal e distribuição de gordura. Isso cria uma situação em que a mulher pode experimentar aumento da circunferência abdominal por diferentes mecanismos ao mesmo tempo. Por isso, é um erro olhar para o corpo dessa mulher e concluir automaticamente que ela precisa “comer menos”. Às vezes, ela precisa comer melhor, organizar melhor as fibras, melhorar a hidratação, movimentar-se mais, investigar sintomas digestivos e avaliar o conjunto da saúde metabólica.

O intestino também conversa com o cérebro

Se você já conheceu o meu trabalho antes, vai lembrar que sempre falei sobre isso. Sobre a tão famosa conexão eixo intestino-cérebro. O intestino não é apenas um tubo responsável por receber comida e eliminar resíduos. Ele possui uma extensa rede de neurônios, interage com o sistema imune e recebe sinais de hormônios, neurotransmissores e metabólitos produzidos ou modificados pelas bactérias intestinais.

Isso não significa que “a microbiota causa ansiedade” ou que “probióticos tratam depressão”. Seria uma simplificação perigosa. Mas sabemos que existe comunicação constante entre intestino e sistema nervoso, e essa relação pode ser especialmente interessante durante a perimenopausa, quando alterações de sono, humor, ansiedade, estresse e percepção corporal são comuns.

Então, o que comer para cuidar do intestino durante a menopausa?

Agora sim, esta ficando interessante, não é mesmo? Se você quer cuidar da sua saúde intestinal na menopausa, não precisa começar comprando dez potes de probióticos, enzimas digestivas e suplementos “detox”. Antes de pensar em suplementos, pense no que chega ao seu prato todos os dias.

A microbiota intestinal é influenciada por diversos fatores, e a alimentação é um dos mais importantes. Uma alimentação variada, rica em vegetais, frutas, legumes, feijões, lentilhas, grão-de-bico, sementes, castanhas e cereais integrais fornece diferentes tipos de fibras e compostos bioativos que podem favorecer um ambiente intestinal mais diversificado. Isso não significa que exista uma lista de alimentos capazes de “aumentar o estrogênio” ou “curar a menopausa”. Significa que uma alimentação predominantemente baseada em alimentos minimamente processados oferece ao organismo uma variedade muito maior de nutrientes e substratos para o metabolismo intestinal.

As fibras merecem destaque especial. Elas não são importantes apenas para “ir ao banheiro”. Diferentes tipos de fibras apresentam diferentes propriedades e podem ser fermentados pela microbiota, contribuindo para a produção de metabólitos como os ácidos graxos de cadeia curta. Ao mesmo tempo, fibras aumentam o volume das fezes e podem ajudar na regularidade intestinal. Para adultos, a recomendação geral citada pelo NIDDK fica em torno de 22 a 34 gramas de fibras por dia, dependendo de idade e sexo, mas a quantidade adequada deve ser individualizada. E existe uma regra de ouro: aumentar fibras muito rapidamente, especialmente sem aumentar a ingestão de líquidos, pode piorar gases e desconforto em algumas pessoas.

saúde intestinal na menopausa

Afinal, qual é a relação entre intestino e menopausa?

Imagine que seu corpo seja uma grande cidade. Os ovários são uma parte dessa cidade. O intestino é outra, o fígado é outra, o cérebro, os músculos, o tecido adiposo e o sistema imunológico também têm seus próprios papéis. Eles não trabalham isoladamente. Existe comunicação constante entre todos eles.

Durante a menopausa, o cenário hormonal muda. O intestino continua funcionando, mas dentro de um novo contexto. A alimentação muda, o metabolismo pode mudar, o sono pode piorar, o nível de atividade física pode diminuir ou aumentar, medicamentos e suplementos podem entrar na rotina e a própria microbiota pode sofrer alterações relacionadas a dieta, idade, estilo de vida e outros fatores. É nesse cenário que a relação entre intestino e menopausa ganha importância.

Durante muito tempo, falamos de menopausa quase exclusivamente pensando em ondas de calor, menstruação irregular, secura vaginal e alterações de humor. Hoje sabemos que a transição menopausal é muito mais ampla. Sono, composição corporal, metabolismo, saúde óssea, cardiovascular, sexualidade, cognição e também saúde digestiva fazem parte dessa conversa.

Se você tem algum assunto que queira saber mais sobre, entre em contato comigo aqui.

Beijos da Nutri
Talita Dezidério

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