A volta dos hobbies! Por que estamos querendo fazer coisas só por prazer

Hobbies


Você já teve a sensação de que não consegue simplesmente ficar sem fazer nada?

Eu tenho 37 anos e tenho pensado bastante sobre isso. Acho que porque conforme a gente vai ficando adulta, parece que a vida vai se transformando em uma enorme lista de coisas que precisam ser resolvidas. Trabalho, casa, família, dinheiro, alimentação, exercícios, aparência, saúde, relacionamentos, mensagens para responder, contas para pagar, coisas para organizar e aquela eterna sensação de que estamos sempre um pouquinho atrasadas em relação à vida que deveríamos estar levando.

E, quando finalmente aparece uma brecha, surge outra pergunta: “O que eu deveria fazer com esse tempo?”, “Nossa, estou perdendo tenpo!”

Eu sei que você reconhece essa sensação. Você senta no sofá, pega o celular e começa a passar o dedo pela tela. Alguns minutos depois, está cansada, mas não exatamente descansada. Então pensa que poderia ter lido um livro, organizado alguma coisa, feito exercício, estudado, adiantado o trabalho ou simplesmente aproveitado melhor aquele tempo.

É curioso, não é? Até o descanso parece precisar ser produtivo. Meu Deus, que loucura!

Justamente por isso que algumas coisas aparentemente simples estejam voltando a chamar tanto a nossa atenção: journal, colagens, crochê, tricô, bordado, pintura, jardinagem, leitura, culinária, cerâmica, escrita, quebra-cabeças, fotografia, artesanato e tantas outras atividades que nos fazem ocupar as mãos enquanto a cabeça, finalmente, tem um descanso.

Eu acredito que não seja apenas uma tendência passageira. Fiquei pensando muito sobre isso, será que é mais uma modinha? Mas não! Os sinais de busca dos últimos anos mostram um interesse crescente por experiências que nos afastam um pouco das telas e nos aproximam da natureza, da criatividade e de atividades feitas no mundo real. Em 2025, por exemplo, o Pinterest registrou crescimento expressivo nas buscas relacionadas a detox digital, natureza, leitura, jardinagem e trabalhos manuais. As pesquisas por ideias de detox digital cresceram 72%, enquanto as relacionadas a “relaxar na natureza” aumentaram 32%. Também cresceram as buscas por projetos artísticos para adultos e por atividades manuais.

A gente tá mesmo é cansada de correr. Mas que esteja começando a perceber que nem tudo na vida precisa nos levar para algum lugar ou render dinheiro.

“Existe uma mulher cansada de ser produtiva demais”

Durante muito tempo, produtividade foi apresentada para nós como uma espécie de virtude universal. Quanto mais conseguimos fazer em menos tempo, melhor. A mulher ideal seria aquela que trabalha, cuida da casa, cuida do corpo, se alimenta bem, mantém os relacionamentos, acompanha os filhos, estuda, se desenvolve profissionalmente, cuida da aparência, dorme oito horas e ainda encontra disposição para fazer tudo isso sorrindo. Eu tentei, juro que tentei! Mas não deu certo. Sabe porque? Porque o problema é que a vida real não funciona assim.

Existe um limite para a quantidade de coisas que uma pessoa consegue administrar sem começar a sentir que está apenas sobrevivendo à própria agenda. E a mulher adulta frequentemente carrega uma cobrança que vai muito além da produtividade profissional. Existe a expectativa de estar disponível emocionalmente, de cuidar dos outros, de manter tudo organizado e, ao mesmo tempo, de não se esquecer de si mesma. Então começamos a transformar até o autocuidado em tarefa.

Precisamos fazer skincare, exercício, meditação, terapia, alimentação saudável, leitura, sono adequado e momentos de lazer. Tudo isso é maravilhoso quando nasce de uma escolha. Mas pode se tornar outra fonte de pressão quando passa a fazer parte de uma lista interminável de coisas que precisamos cumprir para sentir que estamos cuidando corretamente de nós mesmas.

É nesse ponto que um hobby pode ganhar um significado diferente. Não porque crochê, pintura ou jardinagem sejam soluções mágicas para o estresse. Não são, tá?! Mas porque eles podem representar algo que está cada vez mais raro: um espaço da vida que não precisa justificar sua existência.

E se você fizer alguma coisa simplesmente porque gosta?

Imagine que você resolva aprender a fazer crochê. Você compra uma linha, pega uma agulha e começa a tentar. Provavelmente vai errar, aí você desfaz algumas vezes. A primeira peça pode ficar torta e você pode demorar muito tempo fazendo. Mas sabe o que é legal? Você não precisa transformar aquilo em nada. Aquela peça é sua, você não vai vender aquela peça, você não precisar fazer correndo por conta de prazos de entrega…. Não precisa abrir uma loja de artesanato. Não precisa criar um perfil profissional. Hah e outro detalhe você não precisa produzir conteúdo sobre crochê. Não precisa ser boa!

Você pode simplesmente fazer!!!! Parece pouco, mas talvez seja exatamente esse o ponto.

Estamos vivendo uma época em que quase tudo pode ser transformado em conteúdo, produto ou oportunidade. Se você gosta de cozinhar, alguém sugere que você venda comida. Se gosta de pintar, pode criar uma loja. Se gosta de plantas, pode produzir conteúdo sobre jardinagem. Se gosta de organizar a casa, pode transformar isso em método. Se começa a correr, pode acompanhar pace, distância, calorias e metas.

Não há nada de errado em transformar uma paixão em trabalho quando essa é uma escolha consciente. O problema aparece quando começamos a acreditar que tudo aquilo que fazemos precisa gerar algum tipo de resultado. Talvez você queira apenas terminar uma manta.

Os hobbies estão voltando porque estamos procurando uma pausa do digital

Existe algo interessante acontecendo com a maneira como as pessoas estão buscando lazer. Depois de anos vivendo cada vez mais conectadas, começamos a procurar experiências que envolvam menos tela e mais presença. No relatório de tendências para 2026, o Pinterest destacou temas como conforto, autenticidade, autopreservação e uma reação ao excesso de estímulos e à fadiga provocada pelas tendências e pelas redes sociais.

Isso é interessante porque mostra que a vontade de desacelerar não está necessariamente ligada a uma faixa etária específica. É uma resposta a um estilo de vida no qual estamos constantemente recebendo informações, notificações, comparações e estímulos.

Atividades manuais podem devolver o prazer de fazer alguma coisa com as próprias mãos

Existe uma diferença muito grande entre consumir alguma coisa e criar alguma coisa. Quando estamos nas redes sociais, recebemos imagens, opiniões, vídeos, notícias, recomendações e estímulos em uma velocidade impressionante. Podemos passar meia hora consumindo conteúdo sem perceber que nossa atenção foi sendo fragmentada. Já quando fazemos uma atividade manual, normalmente precisamos permanecer ali.

Você precisa acompanhar o ponto do crochê. Precisa observar a tinta no papel. Precisa cortar o tecido. Precisa mexer a massa. Precisa plantar. Precisa esperar.

Esse ritmo mais lento pode ser justamente o que torna essas atividades tão atraentes.Não significa que uma atividade manual tenha automaticamente um efeito terapêutico ou que substitua cuidados profissionais quando eles são necessários. A ideia é outra: criar espaços de presença em uma rotina que frequentemente nos empurra para a pressa.

Eu acredito que não estamos sem tempo mas estamos sem espaço mental

Digo isso porque às vezes, temos algum tempo disponível, mas estamos tão mentalmente sobrecarregadas que não conseguimos aproveitá-lo. É como se o corpo estivesse parado, mas a cabeça continuasse funcionando. Por isso, quando falamos em desacelerar, talvez não seja necessário pensar imediatamente em uma grande mudança de vida. Pode ser muito mais interessante criar pequenos momentos em que você não precise responder a ninguém, produzir nada ou acompanhar o que está acontecendo no mundo.

Uma hora fazendo uma atividade manual pode ser mais significativa para algumas pessoas do que uma hora passando pelas redes sociais. Não porque uma seja “boa” e a outra “ruim”, mas porque são experiências completamente diferentes para a nossa atenção.

O problema é quando até o hobby vira uma obrigação

Aqui existe uma armadilha, tá? Quando você começa estipular o horário, tempo pra fazer um hobby e quando não consegue, começa se cobrar por isso. Ah mulher você transformou o hobby em mais uma meta?

“Vou pintar três vezes por semana.”

Sem perceber, você acabou de transformar seu descanso em projeto. A cultura da produtividade é tão forte que conseguimos levar suas regras para os lugares mais improváveis. Até aquilo que deveria ser prazeroso passa a ser acompanhado de metas, desempenho e comparação. Então eu gostaria de propor outra maneira de olhar para os hobbies!!! Aceita?

  • Você não precisa transformar uma atividade em hábito perfeito.
  • Você não precisa ter disciplina.
  • Você não precisa evoluir rapidamente.
  • Você não precisa terminar.
  • Você pode experimentar, pode gostar ou não.
  • Pode abandonar.
  • Pode voltar seis meses depois.
  • Pode fazer durante uma tarde chuvosa e nunca mais.

O objetivo não é adicionar mais uma obrigação à sua vida. É encontrar pequenos espaços em que você consiga simplesmente estar. No aqui, o agora!!!!!!

E se o seu hobby não precisar aparecer no Instagram?

Essa talvez seja uma das coisas mais libertadoras que podemos fazer atualmente. Não sei pra você mas pra mim é. Não depender da aprovação de ninguém, não pensar em curtidas, não pensar em nada disso. Simplesmente viver alguma coisa que ninguém viu.

Você pode preparar uma receita deliciosa e não fotografar!

Hobbies para mulheres podem ser uma forma de reencontrar uma parte de nós mesmas

Existe uma pergunta que parece simples, mas que pode ser surpreendentemente difícil de responder depois de alguns anos de vida adulta:

“O que você gosta de fazer?”

E isso não significa que exista algo errado com você. É possível passar anos priorizando trabalho, família, relacionamentos e responsabilidades até esquecer quais atividades despertavam prazer antes de toda essa estrutura existir. Por isso, talvez o caminho seja voltar um pouco no tempo.

O que você gostava de fazer quando era criança?

Gostava de desenhar? De pintar? De escrever histórias? De brincar de casinha? De cozinhar? De cuidar de bonecas? De colecionar coisas? De ler? De montar objetos? De ficar no jardim?

Não significa que você precise voltar a fazer exatamente a mesma coisa. Mas essas lembranças podem oferecer pistas sobre aquilo que naturalmente despertava sua curiosidade. Eu, popr exemplo, sempre amei pintar e colecionar adesivos. Voltei exatamento para isso, meu hobby hoje é colorir!

E existe uma diferença importante entre curiosidade e produtividade.

A curiosidade pergunta: “Como será fazer isso?”

A produtividade pergunta: “O que eu vou ganhar com isso?”

Talvez esteja na hora de deixar a primeira pergunta ocupar um pouco mais de espaço.

Jardinagem, leitura, culinária e artesanato: o retorno ao simples

Não é coincidência que atividades como jardinagem, culinária artesanal, leitura e trabalhos manuais estejam aparecendo com tanta força nas tendências de comportamento. Vou compartilhar algumas ideias com você! Que tem sido as minhas favoritas nos últimos meses.

Você não precisa largar tudo para desacelerar

Quando ouvimos falar em slow living, parece que precisamos morar no campo, acordar sem despertador, cultivar nosso próprio alimento e abandonar a vida moderna. Não é isso! Se bem que a ideia é perfeita né. Desacelerar pode significar coisas muito menores e mais possíveis.

Pode ser tomar café sem olhar o celular durante os primeiros minutos da manhã. Pode ser caminhar sem transformar a caminhada em uma meta esportiva. Pode ser ler algumas páginas antes de dormir. Pode ser preparar uma receita no fim de semana sem tentar fazer tudo rapidamente. Pode ser passar meia hora cuidando de plantas. Pode ser escolher uma atividade manual para fazer enquanto escuta música.

A questão é perceber que não precisamos estar aceleradas o tempo inteiro. Você pode continuar trabalhando, cuidando da sua família, fazendo planos, estudando, treinando e construindo seus projetos.
Beijos!!!
Por Talita Dezidério

Leia também: https://talitadeziderio.com/2026/08/26/minhas-colagens-da-semana-arteterapia/

1 Comentário

  1. […] eu quero compartilhar com vocês minhas últimas colagens. Já falei com vocês aqui, sobre isso né. Há alguns meses, eu provavelmente não imaginaria que pedaços de papel, revistas […]

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