Organizar a vida dói
A bagunça esconde muta coisa. E não estou falando apenas de uma bagunça no guarda-roupa ou na sua casa.
O que me trouxe essa reflexão é que enquanto tudo permanece caótico, existe uma falsa sensação de anestesia. Quando a casa vive desorganizada, talvez não precisemos olhar para a mente que também está. Quando estamos o tempo todo no celular, evitamos escutar os pensamentos que insistem em aparecer.

A desordem, muitas vezes, funciona como um esconderijo. Ela impede que vejamos aquilo que realmente precisa de atenção.
É curioso como limpar uma gaveta pode despertar lembranças que não queremos ter. Quando o organizar documentos ou abrir uma planilha pode revelar um problema financeiro que estamos ignorando.
A organização simplesmente expõe aquilo que já existia, como se tivesse tirando um pano que cobria.
O ego prefere deixar tudo como está! Existe uma parte de nós que gosta da história que contamos sobre nós mesmos.
“Eu sou assim.”
“Não tenho tempo.”
“Depois eu resolvo.”
“Um dia começo.”
Mas organizar exige admitir algo desconfortável. Desde as escolhas que fizemos erradas, enxergar os hábitos que nos adoeceram, envergar que estamos sustentando uma versão que não faz mais sentido. Isso dói muito gente! Porque crescimento quase sempre começa com humildade para que possamos reconhecer que precisamos mudar.
Todo crescimento exige pequenos lutos!
Pouca gente fala sobre isso mas toda transformação envolve perdas. Envolver perder hábitos, desculpas, perder versões antigas de nós mesmos, até amizades, abandonar expectativas, cair na realidade e enxergar que não conseguimos fazer tudo. Essas perdas vem de um amadurecimento. Mas também existe uma dor que constrói.
Porém, podemos dizer que a desordem começa no coração. Hoje pensamos que organizar a vida é apenas comprar um planner, fazer uma faxina mas para Santo Agostinho, nada disso é organização.
Organizar a vida é colocar os amores no lugar certo. Ninguém vive desorganizado por falta de agenda, vivemos desorganizados porque amamos as coisas na ordem errada. Aqui ele quer dizer que a casa pode estar arrumada, o treino em dia, agenda organizada e mesmo assim podemos estar em desordem.
Isso muda absolutamente tudo, não é mesmo? Porque não quer dizer que ninguém viva desorganizado por falta de disciplina. Mas que poder ser que vivamos desorganizados porque amamos as coisas na ordem errada.
Amamos mais a aprovação do que a verdade, amamos mais o conforto do que o crescimento, amamos mais a distração do que o silêncio, amamos mais a produtividade do que a presença, amamos mais a imagem que projetamos do que a pessoa que realmente somos…..
Quando os amores estão invertidos, toda a vida se desorganiza, ainda que a casa esteja impecavelmente limpa. É possível ter uma rotina perfeita e um coração completamente perdido.
É possível acordar às cinco da manhã, treinar todos os dias, responder todos os e-mails, cumprir todas as metas e, ainda assim, viver uma profunda desordem interior, porque aquilo que ocupa o centro da vida não deveria ocupar esse lugar.
SErá que seja por isso que tantas pessoas experimentam uma estranha sensação de vazio justamente quando conseguem tudo aquilo que desejavam? Elas imaginaram que a organização exterior produziria paz interior. Uma bússola aponta o caminho mesmo quando o terreno continua difícil. Da mesma forma, um coração ordenado não elimina os problemas, mas impede que eles ditem quem somos. Quando sabemos o que ocupa o primeiro lugar em nossa vida, as demais coisas começam a encontrar seu devido lugar, não porque tudo fique fácil, mas porque deixamos de exigir que aquilo que é secundário carregue o peso daquilo que é essencial.
EStou certa de que seja essa a grande ilusão do nosso tempo: acreditar que precisamos controlar mais, produzir mais, consumir mais e otimizar mais, quando, na verdade, o que mais nos falta é clareza. A clareza de reconhecer o que realmente merece nossa energia, nosso tempo, nossa atenção e nosso afeto.
Por isso eu disse lá no inicio que organizar não é apenas colocar objetos em seus lugares.
O que, afinal, ocupa o primeiro lugar no meu coração?